Um caminho ao lado dos jovens
Olhando para os jovens e caminhando com eles, percebemos a falta de propósito e de sentido de pertença que os leva, muitas vezes, a consumos aditivos, especialmente preocupantes em alguns contextos rurais.
Os meios digitais a que estão ligados também não ajudam, necessariamente, à construção de uma vida com horizonte e esperança. Por outro lado, mesmo no interior do país, onde a dimensão ambiental e ecológica poderia ajudar a vencer o isolamento, e apesar de se definirem cada vez mais trilhos de caminhada e de descoberta das belezas naturais, estes são frequentemente mais valorizados por adultos, especialmente reformados, do que por jovens que se mantêm fechados nas redes sociais, cheios de amigos digitais, mas sem amigos reais.
Esta realidade leva-nos a colocar a questão: como caminhar ao lado dos jovens de modo a torná-los protagonistas da própria vida e da sociedade em que vivem?
A consciência dos múltiplos desafios
Para caminhar ao lado dos jovens, temos de perceber os múltiplos desafios que os envolvem como uma teia forte, mas que se pode romper. Reparamos que a saúde mental está cada vez mais condicionada e que as manifestações de ansiedade, depressão, stress, baixa autoestima e solidão são cada vez mais notórias, afetando o bem-estar e o desempenho escolar dos jovens. A dependência digital conduz à constante comparação entre pares e à procura de aprovação. O cyberbullying leva a uma violência que pode não ser física, mas que se manifesta através de insultos, ameaças, humilhações e divulgação de conteúdos pessoais. Tudo isto prejudica fortemente a autoestima e a imagem corporal, afeta as relações pessoais e a concentração, e vários jovens sentem necessidade de seguir comportamentos dos pares, mesmo quando desalinhados com aquilo em que acreditam, para se sentirem aceites.
Os dados disponíveis mostram também desafios particulares em alguns territórios. No estudo ECATD-CAD 2024, realizado junto de alunos do ensino público entre os 13 e os 18 anos, o Alentejo destacou-se como a região com as maiores prevalências de consumo de álcool e de tabaco. No consumo de álcool nos 12 meses anteriores, por exemplo, o valor registado no Alentejo foi de 62%, acima das restantes regiões. O estudo assinala igualmente que o consumo não prescrito de tranquilizantes ou sedativos ao longo da vida rondava os 7% na região (ICAD, 2025).
Também o Diagnóstico Social de Castelo Branco identifica fragilidades nesta área, nomeadamente a inexistência de uma resposta do Centro de Respostas Integradas especificamente dirigida a crianças e jovens. O documento aponta igualmente como oportunidade de melhoria uma maior participação dos jovens no associativismo, no desporto e noutras áreas da sociedade, precisamente como forma de combater situações de estagnação e vulnerabilidade (Conselho Local de Ação Social de Castelo Branco, 2022).
Paralelamente, a necessidade de reconstruir a relação com a natureza ganha ainda maior relevância perante a vulnerabilidade ambiental dos territórios. Entre janeiro e agosto de 2025, Portugal Continental registou 254 296 hectares de área ardida, um valor 259% superior à média do mesmo período nos dez anos anteriores (ICNF, 2025).
O que podemos fazer pelos jovens e com os jovens?
A escuta e a proposta
Quando os jovens têm a possibilidade de exprimir, de alguma forma, o que os bloqueia, quando se sentem escutados — não necessariamente apenas por técnicos especializados, mas também por pessoas da comunidade onde vivem — e quando as propostas de encontro são igualmente propostas de ação e de contemplação, os jovens ficam tocados interiormente, pois encontram dentro de si muitas das respostas que procuram.
Muitas vezes, temos de os ajudar a formular as suas questões e, a partir daí, as respostas para os grandes desafios que habitam o coração dos jovens vão sendo descobertas dentro de si mesmos, através da experiência de serviço, do silêncio e da interioridade e da coragem de olhar para dentro de si e à sua volta.
Os adultos têm de passar de uma lógica de proteção para uma lógica de promoção da autonomia, da participação e da liderança. É necessário reconectar os jovens entre si, com a sociedade e com a natureza. Precisamos de promover, com eles, alternativas saudáveis e transformadoras. Se conseguirmos aproximar os jovens da natureza, da comunidade e de si próprios, através de formação, partilha e ação concreta, podemos gerar mudança em cada coração juvenil e na sociedade.
É neste caminho que o voluntariado pode assumir uma dimensão particularmente importante. Não é apenas uma forma de ocupar o tempo ou de prestar ajuda. É uma oportunidade para o jovem experimentar que é capaz de agir, assumir responsabilidades, colocar as suas capacidades ao serviço dos outros e produzir uma mudança concreta na comunidade onde vive.
A OCDE salienta que os programas de voluntariado e serviço cívico juvenil podem desenvolver competências, aumentar a confiança dos jovens para uma posterior participação cívica e promover solidariedade, inclusão social e resiliência. Estes programas permitem ainda aos jovens praticar competências de liderança, criar relações e participar ativamente nas suas comunidades (Gagliardi, Pérez-Raynaud & Robinson, 2024).
Esta dimensão é particularmente importante quando queremos passar da vulnerabilidade ao protagonismo. O jovem deixa de ser visto apenas como alguém que necessita de respostas e passa a reconhecer-se também como alguém capaz de ser resposta. Passa de destinatário a participante, de espectador a agente e de alguém sobre quem se decide a alguém que pode participar nas decisões e contribuir para transformar aquilo que o rodeia.
Esta participação não é indiferente ao bem-estar dos próprios jovens. Uma revisão sistemática que envolveu 72 trabalhos e mais de 69 mil jovens encontrou uma correlação globalmente positiva sobre o bem estar juvenil relacionada à participação em atividades de voluntariado, liderança, envolvimento cívico e estruturas juvenis. Entre os resultados identificados estavam um maior sentimento de empowerment e, em alguns estudos, menores níveis de sintomas de ansiedade e depressão. Os autores salientam, contudo, que os efeitos dependem da qualidade da participação: ambientes de apoio, comunicação clara, possibilidade de desenvolver competências e perceção de que a ação realizada tem impacto são elementos particularmente importantes (Donohoe-Bales et al., 2025).
As atividades práticas, nomeadamente de voluntariado, e os momentos de interioridade e espiritualidade podem, assim, fortalecer a resiliência e promover hábitos saudáveis. Num ambiente empático e seguro, os jovens desenvolvem competências socioemocionais, autoconfiança e sentido de pertença. As dinâmicas de voluntariado e liderança local inspiram compromisso, cidadania ativa e ação concreta na sociedade e em favor da Casa Comum.
Em contexto rural, esta possibilidade pode ser particularmente significativa. Um estudo realizado com jovens envolvidos num programa comunitário de liderança identificou um aumento das competências de liderança e das competências sociais. Nos testemunhos dos participantes emergiram ainda dimensões como a autoeficácia, uma maior consciência dos problemas existentes na comunidade e a diminuição do sentimento de isolamento (Puxley & Chapin, 2021).
O território deixa, assim, de ser apenas o lugar onde o jovem vive e pode tornar-se o lugar onde descobre que é capaz de intervir.
Quem participa com os jovens, mesmo em situação de fragilidade, em propostas sociais de voluntariado, em atividades de missão organizadas por instituições e pela Igreja, nomeadamente a Missão País e outras missões paroquiais e diocesanas, vê a transformação do coração dos jovens. Em propostas de serviço, eles aprendem a acolher os desafios, a controlar as emoções com paz, a ser sóbrios nas palavras e a escutar. Caminhando com pares e com adultos de referência, experimentam a autonomia, desenvolvem a comunicação, a autoestima e competências de liderança, negociação e resolução de problemas.
Há ainda uma característica essencial no voluntariado: quem parte para dar descobre frequentemente que também recebe.
O Papa Francisco sublinha esta reciprocidade na Christus vivit, quando apresenta o voluntariado, a cidadania ativa e a solidariedade social como espaços onde os jovens podem desenvolver os seus talentos, criatividade e sentido de responsabilidade. Referindo-se aos jovens que se colocam ao serviço de idosos, doentes ou pessoas em situação de pobreza, acrescenta que muitas vezes descobrem que «o que recebem é mais do que aquilo que dão» (Francisco, 2019, n.º 171).
É precisamente esta reciprocidade que torna o voluntariado uma experiência educativa. O jovem serve, mas deixa-se também interpelar, oferece tempo, mas recebe histórias, aproxima-se das fragilidades dos outros e pode começar a olhar de outra forma para as suas próprias fragilidades. No encontro, aprende, amadurece e pode descobrir capacidades que até então desconhecia em si mesmo.
Quando, dentro de uma proposta de voluntariado social, se junta o cuidado da natureza, surgem outras possibilidades. Num estudo qualitativo com adolescentes que participaram num programa de voluntariado ligado à conservação ambiental, os jovens identificaram a natureza como um espaço que ajudava a aliviar experiências de stress, a equilibrar os sentidos e a criar espaço para encontrar soluções para os problemas. Sendo um estudo com apenas oito participantes, os resultados não devem ser generalizados, mas ajudam a compreender o potencial de propostas que juntam serviço, natureza e reflexão (Hartley, Prideaux & Vaughn, 2023).
As atividades de interioridade e espiritualidade, propostas nas diferentes missões organizadas por entidades da Igreja Católica, fortalecem a reflexão, o propósito, a ligação consigo próprio e com os outros, a autoconfiança e o sentido de pertença. Os adultos que caminham com os jovens percebem como são radicais nas escolhas, sóbrios nas exigências e expectativas, capazes de sacrifício e, simultaneamente, capazes de encher de alegria todo o ambiente.
O caminho
Antes de qualquer projeto, precisamos de um adulto de referência que saiba estar presente, escute sem julgar e confie, mesmo sabendo, à partida, que o jovem fará diferente de si, mas ao seu modo. O jovem precisa de sentir que acreditamos e confiamos nele, não apenas através das palavras, mas verdadeiramente.
Concentremo-nos nas capacidades de cada um e não apenas nas suas vulnerabilidades e ajudemo-lo a perceber as suas riquezas. Caminhemos ao lado, pois o jovem, mesmo frágil, pode definir metas concretas e possíveis. Com os jovens, descubramos experiências de protagonismo e interioridade, de modo que cada um experimente um projeto possível e se encontre consigo mesmo e com o Criador.
Por isso, talvez o primeiro passo para promover o voluntariado entre os jovens não seja perguntar apenas «onde podem ajudar?», mas também «que responsabilidade estamos dispostos a confiar-lhes?».
Um voluntariado verdadeiramente educativo não coloca o jovem apenas a executar tarefas pensadas pelos adultos. Escuta-o, envolve-o na construção das propostas, permite-lhe assumir responsabilidades e tomar decisões, ajuda-o a reconhecer os resultados da sua ação e dá-lhe progressivamente espaço para liderar. As experiências internacionais analisadas pela OCDE mostram precisamente que os programas de voluntariado juvenil podem criar oportunidades para os jovens liderarem projetos próprios e apresentarem soluções concretas para problemas das suas comunidades (OCDE, 2024).
É neste espaço de confiança que o serviço se torna escola de autonomia, responsabilidade e participação.
Para a Igreja, esta experiência ganha um significado particular. Numa mensagem dirigida, em 2022, aos voluntários da Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023, o Papa Francisco definiu o voluntariado como uma «força de intervenção» e os voluntários como uma «graça de Deus», considerando-os também uma dimensão da missão da Igreja.
Em março de 2025, durante o Jubileu do Mundo do Voluntariado, voltou a colocar esta realidade no centro, afirmando que «o voluntariado é profecia e sinal de esperança», porque testemunha a gratuidade, a solidariedade e o serviço aos mais necessitados.
Da vulnerabilidade ao protagonismo não há, portanto, um salto. Há um caminho.
Um caminho feito de presença, confiança, serviço, responsabilidade, relação com os outros, cuidado da Casa Comum e espaço para a interioridade. Caminhar ao lado dos jovens significa não fazer por eles aquilo que podem fazer, mas criar condições para que descubram aquilo que são capazes de fazer.
Significa olhar para as fragilidades sem permitir que estas definam a pessoa. Significa confiar responsabilidade, dar espaço, acompanhar e permanecer próximo.
Porque, quando um jovem descobre que a sua presença conta, que possui capacidades que podem ser colocadas ao serviço dos outros e que as suas escolhas podem transformar alguma coisa na comunidade onde vive, começa também a descobrir um lugar, um propósito e um horizonte para a própria vida.


