Roma acolheu, entre os dias 7 e 10 de maio de 2026, o VI Congresso Mundial dos Salesianos Cooperadores, um encontro que reuniu cerca de 400 congressistas provenientes de todas as regiões e províncias do mundo, no contexto das celebrações dos 150 anos da Associação fundada por São João Bosco em 1876.
Durante vários dias, o Congresso transformou-se numa verdadeira experiência de Igreja universal e de Família Salesiana. Línguas, culturas, experiências pastorais e sensibilidades muito diferentes encontraram-se num ambiente de fraternidade, oração, discernimento e festa, confirmando que o carisma de Dom Bosco permanece vivo, atual e profundamente necessário no mundo contemporâneo.
Um carisma vivo no coração do mundo
Logo no primeiro dia, os congressistas foram convidados a recentrar o olhar na identidade do Salesiano Cooperador enquanto leigo comprometido no coração do mundo. A conferência inaugural, proferida pelo Reitor-Mor, D. Fabio Attard, subordinada ao tema “150 anos construindo um mundo melhor”, recordou que o sonho de Dom Bosco continua hoje através de homens e mulheres que vivem a sua vocação nas famílias, no trabalho, na escola, na política, na cultura, na comunicação social e junto dos jovens mais frágeis.
A grande mensagem do Congresso foi precisamente esta: o carisma salesiano não é uma memória do passado, mas uma proposta plenamente atual. Num tempo marcado pela fragmentação social, pela crise educativa, pela solidão e pela perda de referências, os Salesianos Cooperadores sentem-se chamados a ser presença de esperança, proximidade e acompanhamento.
A vocação laical como missão transformadora
Ao longo dos vários painéis, mesas-redondas e trabalhos de grupo, repetiu-se a ideia de que o Salesiano Cooperador não pode limitar-se a “ajudar” a missão salesiana. É chamado a ser sujeito ativo da evangelização no meio do mundo. A vocação laical salesiana foi apresentada como uma presença transformadora nas realidades quotidianas, sobretudo onde os jovens vivem situações de vulnerabilidade, pobreza afetiva, exclusão ou ausência de horizonte.
As intervenções destacaram também os desafios culturais e pastorais das novas gerações. Falou-se da urgência de escutar os jovens, de habitar os ambientes digitais, de investir na educação integral e de criar comunidades cristãs mais acolhedoras, missionárias e próximas das pessoas. Em diversos momentos, surgiu o apelo a uma pastoral menos burocrática e mais relacional, inspirada no estilo do próprio Dom Bosco: presença, alegria, confiança e acompanhamento personalizado.
O espírito de família como prioridade
Particularmente marcante foi a comunicação da Madre Chiara Cazzuola, Superiora Geral das Filhas de Maria Auxiliadora, que sublinhou a necessidade de preservar o “espírito de família” como uma das maiores riquezas herdadas de Dom Bosco e de Madre Mazzarello. A Madre Chiara recordou que a missão salesiana nasce sempre da relação, da escuta e da capacidade de caminhar juntos. Alertou ainda para o risco de uma pastoral demasiado funcional ou centrada apenas em estruturas, insistindo que a prioridade continua a ser o encontro humano e educativo com os jovens.
Também António Boccia, coordenador mundial cessante dos Salesianos Cooperadores, deixou uma intervenção profundamente marcada pela gratidão e pela visão de futuro. Recordando o caminho realizado ao longo dos últimos anos, destacou a capacidade da Associação para crescer em comunhão, internacionalidade e corresponsabilidade laical. Sublinhou igualmente a importância da formação permanente e da fidelidade criativa ao Projeto de Vida Apostólica, defendendo que os Salesianos Cooperadores devem continuar a ser presença ativa e credível nos ambientes onde vivem e trabalham.
Um Congresso vivido em clima de oração
As celebrações litúrgicas marcaram profundamente o ritmo espiritual do Congresso. Nas homilias foi insistido o convite a “olhar para dentro”: olhar para a própria vida, para a Associação, para a Igreja e para o mundo, deixando-se conduzir pelo Espírito Santo. Recordou-se que a fecundidade apostólica nasce da intimidade com Cristo e da capacidade de viver concretamente o amor fraterno.
A Via Lucis celebrada durante o Congresso tornou-se um dos momentos mais simbólicos destes dias, recordando que os Salesianos Cooperadores são chamados a levar a luz do Ressuscitado ao quotidiano das famílias, das escolas, dos ambientes juvenis e da sociedade.
Outro dos aspetos marcantes foi a forte dimensão internacional do encontro. Os trabalhos por regiões continentais permitiram partilhar desafios muito distintos: desde a secularização europeia ao crescimento da Igreja em África e na Ásia; desde a fragilidade económica de algumas regiões até às novas oportunidades missionárias abertas pelos meios digitais.
Neste contexto, ganhou particular relevo a reflexão sobre a reorganização da presença salesiana em África. O Congresso apoiou o desenvolvimento de uma proposta que prevê a criação de duas regiões africanas distintas, substituindo a atual estrutura que integra todo o continente africano juntamente com Madagáscar. A medida pretende favorecer maior proximidade, coordenação e eficácia missionária.
Atualizar a missão para os desafios do século XXI
Também foi aprovada a criação de um grupo de trabalho destinado à revisão e atualização do Projeto de Vida Apostólica (PVA), documento fundamental da identidade dos Salesianos Cooperadores. Longe de ser apenas um regulamento interno, o PVA foi apresentado como uma verdadeira carta espiritual e missionária, chamada a responder aos desafios do século XXI sem perder a fidelidade ao espírito de Dom Bosco.
Neste horizonte, a realidade da lusofonia surgiu igualmente como um elemento estratégico para o futuro da missão salesiana, particularmente no hemisfério sul. A língua portuguesa assume hoje um papel cada vez mais relevante em vários países africanos onde a Família Salesiana continua em crescimento, tornando-se instrumento de evangelização, formação e cooperação missionária.
Um dos momentos mais significativos do Congresso foi a apresentação do novo Coordenador Mundial dos Salesianos Cooperadores, Borja Pérez, natural de Espanha, tornando-se o primeiro representante da Região Ibérica a assumir esta missão mundial. A sua eleição foi recebida com esperança e entusiasmo, sendo vista como sinal da crescente vitalidade da presença salesiana ibérica no contexto internacional.
O sonho de Dom Bosco continua
Mas talvez o maior testemunho destes dias tenha sido a certeza de que o sonho de Dom Bosco continua vivo através de milhares de leigos espalhados pelo mundo. Homens e mulheres simples, profundamente inseridos nas suas comunidades, que procuram viver o Evangelho com alegria, espírito de família e paixão educativa.
Num mundo frequentemente marcado pelo medo, pela indiferença e pela fragmentação, o Congresso Mundial deixou uma mensagem clara: a educação continua a ser uma questão de esperança e o carisma salesiano permanece uma resposta atual para a Igreja e para a sociedade.


